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PJ Vulter - Just Read It

Aqui fala-se de tudo... Desde a actualidade, nos seus múltiplos aspectos, ao desenvolvimento de consciências; passando - claro está - pela divulgação dos meus romances. Tudo o que tem de fazer é Ler: Just Read It.

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Novo Romance: Ainda sem título

A Liberalidade do ser Escritor

07.02.20 | PJ Vulter

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Como escritor estou sempre ávido por coisas sobre a escrita; gosto de ouvir outros escritores, conhecer as suas técnicas, as suas tribulações, as suas opiniões… E foi numa dessas minhas buscas que dei com um vídeo no Youtube que pretendia responder à questão: porque é que Hoje há tanta gente a querer ser escritor?

A premissa inicial desta abordagem parte da ideia de que é bom saber que o gosto pela literatura se espalhou desta maneira, mas que isso – de alguma forma – espelha aspectos menos bons e sombrios sobre a humanidade. E que aspectos são esses?

A crescente solidão e isolamento que o individuo sente… A ideia central é que a «paixão» - propositadamente entre aspas - pela escrita nasce da necessidade que o individuo tem em comunicar quando não tem ninguém com quem o fazer; e defende que numa sociedade mais inclusiva, onde as pessoas tivessem mais tempo para si próprias e para os outros, talvez nem existissem livros…

Eu não sei quanto a vocês, mas eu discordo inteiramente.

Apesar dos argumentos estarem logicamente construídos – e até defendidos, recorrendo a figuras históricas de relevo -, entendo que foram parciais na análise da questão e tendenciosos nas conclusões; levando-me até a suspeitar que talvez nem gostem de livros.

É evidente que todos os escritores sentem necessidade comunicar, mas não é o comunicar por comunicar, no sentido de falarem com alguém; querem contar histórias: um escritor quer contar histórias ao mundo. E quer fazê-lo, não porque seja uma pessoa solitária e isolada - o acto da escrita pode até sê-lo, mas não necessariamente o escritor; quer fazê-lo porque nele - o escritor -, a todo o instante, nasce uma história nova que urge ver a luz do dia…

Hoje há muitos escritores cosmopolitas com vidas recheadas de eventos sociais, que dão entrevistas sobre o seu trabalho e onde – regra geral – lhes perguntam sobre projectos futuros; e há outros, menos cosmopolitas, que têm grupos de trabalho onde discutem as suas ideias para os livros… Portanto, não poderá jamais ser o isolamento ou a solidão o que motivou, e motiva, estes escritores a escreverem.

O que leva uma pessoa a escrever e o que leva alguém ser um escritor são coisas diferentes; e acho que é que aqui que a abordagem falha.

Muitas pessoas têm diários onde confessam as suas dores e preocupações; e estas pessoas – muito possivelmente – fazem-no, começaram a escrever diários, porque sentem que não têm com quem falar ou quem as entenda, mas não creio que estas pessoas tenham vontade de partilhar essas suas inquietações com o mundo, pois receiam que o mundo não as compreenda. Já o escritor escreve, precisamente, porque quer partilhar as suas inquietações com o mundo; e quem quer isto não pode recear que os outros não o entendam. É por isso que escrever e ser escritor são coisas muito distintas…

Houve, de há uns anos a esta parte, uma vulgarização da concepção anglo-saxónica da definição de escritor; e esta vulgarização é falha, quando migrada para outras realidades. Para os Anglosaxónicos todos os que trabalham com a palavra são Writers; traduzido à letra: escritores. Contudo, na Anglosaxónia – se assim me permitirem dizer -, por norma, não há Writers; o que há é News Writer, Novel Writer, Mistery Writer… Todavia, a ideia que foi usurpada, foi a dos Writers - genérico - e, por consequência, o conceito de escritores ganhou uma amplitude enorme para abarcar uma série de realidades distintas. E eu penso que quem elaborou este vídeo possa ter sido vítima desta confusão, porque de facto há quem escreva para desabafar, porque não tem quem o ouça; mas estas pessoas não são necessariamente escritoras e escritores.

Há um outro aspecto, nesta perspectiva limitativa da génese dos escritores, que me faz acreditar nalgum preconceito para connosco; os escritores. É evidente que se parte de um conjunto de estereótipos: o escritor é, à partida, uma pessoa só e isolada, por isso se torna escritor; e o volume de escritores aumenta, porque o isolamento e a solidão grassam na nossa sociedade. Nós os escritores, por esta descrição, somos uns seres estranhos, inadaptados, incapazes de comunicar verbalmente com os outros; uns bichos do mato. Mas olhando por esta lupa, onde enquadramos os escritores de FC, de High Fantasy, de Fantástico em geral? Ou mesmo os de policiais e thrillers?

Quererão alegar, os autores do vídeo, partindo do pressuposto - erróneo - de que o escritor nasce do seu isolamento e solidão, que aqueles escritores terão – provavelmente – enlouquecido em resultado dessas condições?!

A génese do escritor nada tem que ver com a solidão e o isolamento. O «bichinho» surge cedo; muitas vezes em criança, quando cria a suas próprias histórias em buscas das respostas às suas inquietações. Todas as crianças o fazem, procuram respostas, mas as que se tornarão escritoras não quererão guardar essa jornada só para elas; quererão partilhá-la com o mundo. As inquietações, entretanto, vão aumentando e complexificando-se com o crescimento e o conhecimento que vão tendo do mundo, mas o que nunca muda é a sua vontade em partilhar as suas histórias… Talvez, nalguns momentos, estas pessoas pareçam ausentes, isoladas e solitárias, mas são elas quem procuram isso enquanto viajam pelos mundos por elas criados; e não o contrário…

Portanto, respondendo à questão que o vídeo tentava responder, as pessoas, Hoje, querem ser escritoras, não porque se sintam sós e isoladas, mas porque criou-se a ideia de que ser escritor é fácil; e isso muito se deve ao conceito Anglosaxónico referido acima. Além disso, também se construiu a fantasia de que para se ser escritor basta juntar palavras; quando os famosos começaram a vender livros e a esgotar edições, toda a gente pensou que poderia fazer o mesmo. Se a isto somarmos a facilidade com que hoje se consegue ter um texto limpo e editado - em papel ou somente no visor de um computador -, a proliferação dos cursos de escrita criativa e storytelling que prometem Best Sellers e a visibilidade mediática que alguns autores – e as suas histórias fantásticas de vida – têm, o ser escritor tornou-se um filão explorar: pouco investimento e uma potencial fonte de lucros. É isto que faz com que hoje haja mais pessoas a querer ser escritoras; o ver que pessoas normais conseguiram uma vida de sonho rabiscando umas palavras…

No entanto, ser escritor é muito mais do que rabiscar palavras... E quem é escritor sabe, por exemplo, que por detrás de cada parágrafo há uma quantidade enorme de trabalho; um trabalho que é invisível para o mundo.

Tenho pena da maior parte daquelas pessoas, porque vivem um delírio, pois – como disse – escrever e ser escritor são coisas muito diferentes e, em última instância, será isso que diferenciará o trigo do joio e os trará – mais tarde do que cedo – à evidente realidade de que não são escritores.

Mas o que faz um escritor?

Não sei ao certo… O que sei é que há muita gente a escrever bem que jamais será escritora, porque não basta escrever bem para se ser escritor. Penso que para se ser escritor – essencialmente - é preciso ter um certo espírito e uma certa disponibilidade mental para atentar nos detalhes da vida; e, é claro, ter coragem para os questionar.

Revendo

Os Deuses Esquecidos

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